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Astronáutica
Há bilhões de anos, antiqüíssimas civilizações alienígenas
descobriram uma tecnologia capaz de possibilitar a viagem mais rápida que a
luz: a distorção espacial.
Essa tecnologia consiste num equipamento capaz de gerar um campo que distorce drasticamente o espaço à frente da nave, contraindo o espaço à frente da nave e expandindo-o à ré, de forma a permitir uma viagem mais rápida que a luz. O processo, porém, só funciona de forma eficaz se esse espaço não contiver quantidades significativas de matéria, nem campos gravitacionais. O processo consome uma quantidade fenomenal de energia, pois o campo de distorção dissipa-se continuamente na forma de radiação taquiônica. Porém, a nave não acumula energia cinética. Por isso, a aceleração e as curvas efetuadas em regime de distorção espacial não produzem os efeitos inerciais costumeiros: a nave pode fazer curvas fechadas e aumentar sua velocidade enormemente numa fração de segundo sem que os passageiros percebam coisa alguma. Fala-se, por isso, de pseudoaceleração.
Antigas civilizações extraterrestres obtiveram, há muitas eras, velocidades médias de cruzeiro interestelar da ordem de até 200 ou 300 c (1c = velocidade da luz = 299.792,458 km/s) por esse meio, alcançando, com técnicas especiais e em trechos muito curtos, máximos de até 700 c, mas há dois ou três bilhões de anos não se ouvia falar de avanços na velocidade das naves e acreditava-se que esses eram os limites do possível.
Entretanto, no século 24 os novihumanos conseguiram produzir uma síntese original de elementos de física, química e cibernética que resultaram numa nova tecnologia, muito mais flexível, denominada transdistorção, que viabilizou naves capazes de viajar a velocidades bem maiores e por longos períodos. Consiste em acumular “distorções dentro das distorções”, multiplicando o efeito de distorção do espaço. Também aumentaram a eficiência, a segurança e a flexibilidade dos geradores de energia de ponto-zero.
A transdistorção também pode ser usada de maneira “invertida”, para movimentar as naves a velocidades muito inferiores à da luz com o mesmo sistema. Isso poupou peso e espaço por dispensar os poderosos motores de impulso subluz (geralmente baseados em plasma acelerado por fusão nuclear) antes usados por todas as naves quando navegavam dentro dos limites de um sistema planetário.
Em geral, quanto maiores forem os geradores de transdistorção, mais seguros e eficientes eles serão a altíssimas velocidades. Por isso, a maior parte das naves interestelares que os utiliza desloca milhões ou dezenas de milhões de toneladas e algumas são ainda maiores. As naves bem menores utilizadas no tráfego interplanetário (centenas ou milhares de toneladas) têm velocidades bem mais limitadas.
Nos seis séculos seguintes, a velocidade de cruzeiro das melhores naves interestelares construídas pelos humanos atingiu 30.000 c. Isso mudou inteiramente o caráter da civilização galáctica: as viagens interestelares deixaram de ser um empreendimento heróico para se tornar uma rotina e pela primeira vez sistemas solares distantes puderam manter-se em contato permanente.
Tornou-se possível, pela primeira vez na história, a criação de verdadeiras civilizações interestelares, oportunidade que foi aproveitada pelos novihumanos e seus aliados, criando milhares de colônias num raio de até 5 mil anos-luz da Terra e ganhando uma real ascendência sobre esse trecho da Via Láctea.
Infelizmente, parte dessa nova tecnologia caiu também nas mãos do Império Trantoriano, que a usou para expandir seus domínios de forma gigantesca. Embora não tenha obtido a mesma precisão e eficiência, suas grandes naves atingem velocidades pouco menores que as da Solidariedade Galáctica.
Limitações da transdistorção
A velocidade padrão das naves é (quase) atingida apenas em
alto espaço, isto é, em regiões distantes de sistemas solares, porque a
presença de campos gravitacionais limita drasticamente o uso da distorção espacial.
A influência do campo gravitacional da Via-Láctea pode ser considerada
desprezível: reduz em apenas 0,03% a velocidade máxima teórica. Entretanto, a
14 bilhões de km do Sol, a velocidade máxima que pode ser atingida pela
transdistorção cai em 50%, a 7 bilhões em 75%. O mesmo se passa com a aceleração. A 450 milhões de km (ou seja, no
cinturão dos asteróides) uma nave cuja velocidade máxima seja teoricamente de 1.000
c não pode desenvolver mais que 1c. A fórmula geral é:
![]()
Onde g é a intensidade da gravidade local, medida em gravidades da
Terra. A mesma fórmula aplica-se à aceleração.
A tabela abaixo mostra as velocidades máximas para uma nave
com velocidade máxima de 1.000 c no alto espaço:
|
Distâncias |
distância
km |
velocidade
( c ) |
velocidade
(km/s) |
campo G(*) |
|
Distâncias do Sol |
|
|
|
|
|
limite
da influência gravitacional do Sol (2 AL) |
18.000.000.000.000 |
1.000 |
299.792.315 |
0,00000007 |
|
borda
exterior da nuvem de Oort |
15.000.000.000.000 |
1.000 |
299.792.234 |
0,00000007 |
|
borda
interior da nuvem de Oort |
4.500.000.000.000 |
1.000 |
299.789.539 |
0,00000007 |
|
1
mês-luz do Sol |
800.000.000.000 |
1.000 |
299.698.844 |
0,00000007 |
|
7
dias-luz do Sol |
182.000.000.000 |
994 |
297.993.243 |
0,00000007 |
|
3
dias-luz do Sol |
78.000.000.000 |
968 |
290.251.055 |
0,00000007 |
|
1
dia-luz do Sol |
26.000.000.000 |
772 |
231.346.777 |
0,00000009 |
|
órbita
de Baco |
17.000.000.000 |
591 |
177.178.053 |
0,00000011 |
|
órbita
de Minerva |
11.000.000.000 |
377 |
113.005.966 |
0,00000018 |
|
órbita
de Prosérpina |
7.000.000.000 |
197 |
58.995.359 |
0,00000034 |
|
órbita
de Plutão |
5.900.000.000 |
148 |
44.443.532 |
0,00000046 |
|
órbita
de Netuno |
4.500.000.000 |
92 |
27.563.240 |
0,00000074 |
|
órbita
de Urano |
2.900.000.000 |
40 |
12.097.583 |
0,00000167 |
|
órbita
de Saturno |
1.430.000.000 |
10 |
3.034.208 |
0,00000668 |
|
órbita
de Júpiter |
780.000.000 |
3,03 |
909.204 |
0,00002229 |
|
meio
do cinturão de asteróides |
418.880.000 |
0,88 |
262.778 |
0,00007711 |
|
órbita
de Marte |
228.000.000 |
0,26 |
77.902 |
0,00026010 |
|
órbita
da Terra |
149.600.000 |
0,11 |
33.543 |
0,00060406 |
|
órbita
de Vênus |
108.000.000 |
0,058 |
17.483 |
0,00115897 |
|
órbita
de Mercúrio |
57.800.000 |
0,017 |
5.008 |
0,00404619 |
|
Distâncias da Terra |
|
|
|
|
|
limite
da influência gravitacional da Terra |
2.000.000 |
0,110 |
32.990 |
0,00061420 |
|
órbita
da Lua (ponto L5) |
384.405 |
0,077 |
22.976 |
0,00088188 |
|
órbita
geoestacionária |
42.284 |
0,0029 |
870 |
0,02328517 |
|
atmosfera
superior (150 km de altitude) |
6.520 |
0,000071 |
21 |
0,95454449 |
|
próximo
à superfície da Terra |
6.370 |
0,000068 |
20 |
1,00000000 |
|
Distâncias da Lua |
|
|
|
|
|
próximo
à superfície da Lua |
1.735 |
0,00040 |
121 |
0,16691946 |
(*)
no alto espaço, o campo de gravidade provém principalmente da própria massa da
nave
A movimentação sob transdistorção também pode ser prejudicada pela presença de matéria. O campo de transdistorção não envolve apenas a nave, mas também um grande volume de espaço à sua volta, proporcional à velocidade, o que significa que é forçado a arrastar não só a massa do veículo, como também o dos gases contidos nesse espaço.
Na prática, isso significa que a transdistorção não pode ser usada abaixo da alta atmosfera. O limite prático é de aproximadamente 100 km de altitude para um planeta semelhante à Terra. A 70 km de altitude, já perde 80% de sua eficiência. A baixas altitudes (30 km ou menos), a velocidade cai para algumas dezenas de quilômetros por hora – arrastando consigo uma enorme massa de ar e provocando ventanias, ou mesmo furacões, na superfície.
No virtual vácuo do espaço interplanetário e interestelar, porém, a densidade é tão baixa que o efeito é desprezível. Mesmo as nebulosas mais densas não reduzem a velocidade mais do que 0,001%.
Superdistorção
e Hiperdistorção
Os trantorianos ainda não conseguiram reproduzir satisfatoriamente duas importantes técnicas usadas pela civilização da Solidariedade Galáctica. A primeira delas é a superdistorção, que permite a pequenas naves militares (caças) chegarem a 300.000 c e algumas naves experimentais a 500.000 c. A violenta tensão a que isso submete os geradores representa um risco considerável e exige a substituição do elemento propulsor depois de apenas uma hora (geralmente) de uso, mas mesmo assim isso oferece uma grande vantagem tática à Solidariedade Galáctica. O tamanho dessas naves é normalmente limitado a alguns milhares – ou, no máximo, dezenas de milhares de toneladas. Umas poucas chegam a centenas de milhares.
Outra técnica
é a da hiperdistorção, uma modificação do gerador de transdistorção que permite distorcer
o espaço na direção da quarta dimensão, ou hiperespaço. Essa operação também submete
a nave a forças quase inconcebíveis, que podem esmagá-la instantaneamente em
caso de falha dos sistemas de compensação. Além disso, absorve tanta energia que
as velocidades obtidas durante o uso da hiperdistorção são limitadas (tipicamente a
um máximo de 7.500c) e o “mergulho” no hiperespaço só pode ser mantido com relativa
segurança por algumas horas (18-20 horas a 4.500c, o suficiente para percorrer 10
anos-luz em alto espaço). Entretanto, isso torna a nave praticamente
indetectável sem impedi-la de observar o espaço normal e usar suas armas, o que
tem interessantes aplicações militares. Tais naves podem ter de dezenas de
milhares a milhões de toneladas.